Um pai que eu nunca tive

03.08.10 . Devocional . 4 Comentários

Tenho acompanhado, como pastor, o dia-a-dia de várias famílias. Tenho visto que cada dia que passa a dinâmica das famílias vem aumentando. Vejo crianças já com muitos compromissos e atividades, e pais lutando para manter seus empregos ou lutando para conquistarem ainda mais espaço e realização no tão concorrido mercado de trabalho. Tenho visto filhos serem negligenciados neste processo e famílias se desestruturando por não suportarem esta dinâmica de vida tão competitiva e corrida. Me direciono neste momento a você pai, pois não suporto mais ver filhos com sua auto-estima destruída, cheios de carências afetivas, cheios de lacunas em suas vidas por falta da participação, falta de instrução, falta de cuidado, falta da presença e do amor de seus pais.

Todo filho deseja que seu pai seja seu mentor, seu amigo, seu espelho; todo filho deseja que seu pai participe de sua vida e que esteja junto a ele nas descobertas da própria vida. O problema é que a dinâmica da vida mudou muito. As famílias não tem mais tempo de sentarem juntas a mesa, não tem tempo de compartilharem as descobertas diárias, não tem mais tempo para rir, para o tão gostoso lazer, não tem tempo mais para conversar e interagir, e mesmo quando tem, já estão tão sutilmente separados, distantes, que cada um procura o seu próprio interesse, aquilo que lhe é conveniente e com isso deixam de compartilhar do que se chama família. E isso se reflete também na relação pai e filho(a). O pai deixa sua função de lado e passa a ser uma figura ao invés de cumprir o seu papel, com sua sutil ausência, ele permite que outros ocupem o seu lugar. Esse “outros” é um perigo e transforma-se num problema, pois na grande maioria das vezes quem ocupa o papel de pai na vida do filho não é a pessoa mais indicada (colegas mais velhos e mau intencionados, drogas, álcool, …).

Quando li a segunda carta de Timóteo outro dia, fiquei ainda mais admirado com o seu conteúdo. O apóstolo Paulo diz assim na parte “a” do verso 2 do capítulo 1, “a Timóteo, amado filho,…”. Em outras cartas o apóstolo se direciona a Timóteo da mesma maneira, sempre tratando-o como a um filho ou assim o denominando. Nessa carta em particular vemos algumas coisas interessantes. Paulo estava preso pela segunda vez em Roma e estava esperando o seu julgamento. Parece que já estava se preparando para a p?opria morte, “Quanto a mim, já estou sendo derramado como libação, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.” (4:6-7) e estava se sentindo muito sozinho, pois além de estar apenas com Lucas ao seu lado naquele momento, muitos abandonaram o apóstolo, “Procura vir ter comigo breve; pois Demas me abandonou, tendo amado o mundo presente, e foi para Tessalônica, Crescente para a Galácia, Tito para a Dalmácia; só Lucas está comigo. Toma a Marcos e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério.” (4:9-11). Paulo escreve a Timóteo não apenas para lhe dar algumas instruções ou para lhe deixar mais algum conhecimento pastoral. Ele escreve a Timóteo por tê-lo como a um filho, por estar com saudades e fazer o que todo o ser humano em uma situação muito difícil faz, ele queria estar perto das pessoas que amava.

Timóteo era filho de um grego gentio (pagão), vemos isso em Atos 16 “Chegou também a Derbe e Listra. E eis que estava ali certo discípulo por nome Timóteo, filho de uma judia crente, mas de pai grego”. Na sua carta, Paulo lembra que Timóteo foi bem criado e instruído na palavra por sua mãe e sua avó. A única menção ao pai dele é em Atos. Ele viajou com o apóstolo algumas vezes, foi colocado por Paulo para cuidar um pouco da igreja em Éfeso, recebia os cuidados do apóstolo através das cartas e vemos até Paulo preocupado com a enfermidade de Timóteo “Não bebas mais água só, mas usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades.” (1Tm 5:23). Paulo o tinha verdadeiramente como a um filho. Fico muito comovido quando leio a segunda carta a Timóteo e vejo aquele homem que suportou açoites, naufrágios, perseguição, fome, nudez… dizer, “Dou graças a Deus, a quem desde os meus antepassados sirvo com uma consciência pura, de que sem cessar faço menção de ti em minhas súplicas de noite e de dia; e, recordando-me das tuas lágrimas, desejo muito ver-te, para me encher de gozo; trazendo à memória a fé não fingida que há em ti, a qual habitou primeiro em tua avó Loide, e em tua mãe Eunice e estou certo de que também habita em ti.” (2Tm 1:3-5). Se você é pai e está negligenciando o seu filho, está deixando de conviver com ele, de ajudá-lo, de incentivá-lo e amá-lo medite nesta passagem acima. O que o apóstolo nos ensina é que um Pai sempre:

1- Agradece a Deus pelo filho que tem. Paulo diz “dou graças a Deus”. Na visão bíblica filho é sempre benção e não maldição. Diz o AT que feliz é aquele que enche a sua aljava deles.

2- Um pai sempre se lembra do seu filho. Paulo poderia ter se desesperado pois estava na iminência de sua morte. Poderia ter apelado, por medo, pois ele era cidadão romano. Poderia ter feito muitas coisas, mas julgou ser importante escrever mais uma vez para Timóteo, seu filho amado.

3- Um pai deve sempre desejar ter seu filho próximo a ele. Isso não quer dizer somente posição geográfica, mas também posição no seu coração e no coração de seu filho. Quantos pais têm seu filho próximo a si, mas distante do seu coração. Quantos pais podem ter seu filho próximo a si, mas não perceberem que já perderam o coração, a afeição e até o respeito de seu filho. Paulo diz, “recordando-me das tuas lágrimas, desejo muito ver-te, para me encher de gozo”, na minha tradução NVI fica ainda mais comovente, ele diz “Lembro-me das suas lágrimas e desejo muito vê-lo, para que a minha alegria seja completa”. Quantos filhos têm orado a Deus pedindo o amor de seus pais!!!

4- Um pai nunca deveria permitir ser substituído por outro na vida de seu filho. Se o pai de Timóteo falhou, se foi ausente, se aconteceu algo, a Bíblia não mostra, mas ela nos mostra que Paulo e Timóteo tinham uma relação de pai e filho, a Bíblia mostra o cuidado, o amor, a preocupação, a saudade e o zelo que um pai deveria ter por seu filho, e Paulo e Timóteo podem servir para você, pai, não cair no erro de perder seu filho para outro, pois o caso aqui é especial porque Deus levantou um para o outro, mas pode ser que o seu filho não encontre um Paulo e se prejudique muito em sua vida.

Não deixe sua função de lado. Não perca esse privilégio dado por Deus chamado de paternidade. Ame, cuide, supra, proteja, zele, instrua, exorte, discipline e esteja sempre ao lado do seu filho, porque ainda que ele não diga em palavras é isso o que ele deseja. Que o Senhor te abençoe!

Sobre o autor

Lyncoln Napoleão escreveu 12 artigos neste blog.

Pastor, professor, casado com Gabi, usuário entusiasta de software livre, praticante de Aikido e servo de Cristo.

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  • Marcelo Soeiro

    Napoleão, tudo bem, meu querido?!?! É, um assunto relevante e que nesses dias, deveriam nos fazer refletir e rever (muitos) conceitos. Temos visto nossa sociedade, cada vez mais decadente, negligenciar suas responsabilidades como pais, e, pior do que isso, tentando, a todo custo, transferir essas mesmas responsabilidades para o Estado. Vemos a busca por leis que proíbam jogos, filmes, x ou y, quando, na verdade, isso deveria ser feito pelos pais, que, imbuídos de seu papel sagrado diante de Deus, e indispensável diante da sociedade, não deveria se preocupar com as intenções ou determinações do Poder Público para esse ou aquele caso. Perceba que, pessoalmente, sou contra essas proibições, por dois motivos:

    1 – Já citado, é dever dos pais ser o filtro dos filhos com a sociedade e o que lhe é oferecido.
    2 – Quando o filho tiver idade suficiente, ele mesmo poderá decidir.

    E, o pior é: se algo dá errado, as pessoas se perguntam “por que o Estado não fez nada, ou não criou leis para isso?!?!”. Quando um jovem entra em um cinema em São Paulo e mata pessoas a tiros, culpam o tal do jogo Doom, que é isso, que é violento, que traz má influência, mas, não se fala dos pais que deixavam o menino enfurnado no quarto por 15, 16 horas seguidas só ele e o jogo. Nem proibiram e também não dosaram. Creio que está na hora também, à luz de tudo que temos visto e ouvido, de exercermos o amor aos nossos filhos e, sabemos que isso implica, também, em discordância, seja do pai com o filho e filho com o pai, mas, que isso não seja usado como combustível para contenda, onde reside o pecado, mas, para entendimento e crescimento… pais não acertam sempre nem os filhos erram da mesma forma. Mas, ainda que o pai esteja errado, exerce uma autoridade dada por Deus e, se ele anda com Espírito consigo, saberá reconhecer e pedir perdão por esses enganos.
    Texto excelente, meu querido.
    Fique com Deus.

  • Melyssa

    Linconl,
    Cada dia que passa suas palavras me tocam mais. Que Deus ilumine sempre seus dias, lhe conduzindo ao caminho da luz e sabedoria, pq sei que assim ajudará cada dia mais ao próximo. Sinto orgulho de vc !!!
    Beijão Grande.

    Melyssa

  • http://www.euecristo.com.br Lyncoln Napoleão

    Oi Marcelo. Que bom ver você por aqui. É isso mesmo, estamos transferindo nossas responsabilidades, se vivêssemos os nossos papéis, seríamos mais felizes e realizados como pessoas e em família.

  • http://www.euecristo.com.br Lyncoln Napoleão

    Oi Mel, obrigado! Que Deus te abençoe, a você e a sua família! Deixe sempre aqui a sua crítica ou sugestão, sempre será muito bem vinda!